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sábado, 19 de outubro de 2013

Disposta a puxar para si o discurso ambientalista que sustenta a ex-senadora Marina Silva, a presidente Dilma Rousseff lançou ontem o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo), em uma cerimônia repleta de recados políticos e eleitorais. Apesar de estar pronto desde junho, o projeto é apresentado para contrabalançar a repercussão da aliança de Marina com o governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos. Dilma reforçou que não adianta crescer se não houver equilíbrio sustentável, prometeu que os profissionais do Mais Médicos vão para as zonas rurais brasileiras, garantiu a ampliação do Programa de Aquisição de Alimentos e afagou os pequenos produtores rurais. “Temos que discutir o futuro do Brasil Rural e o papel dele no desenvolvimento do país”, defendeu a presidente. Recepcionada aos gritos de “olê, olê, olê, olá, Dilma, Dilma”, a presidente deixou para o chefe da Secretaria-Geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, a tarefa de resolver a única saia justa na cerimônia. O ministro da Agricultura, Antônio Andrade, vinha sendo vaiado toda vez que tinha o nome anunciado. Representantes de pequenos produtores, como Maria Verônica Santana, pediam que a presidente vetasse o projeto de lei que permite a utilização de agrotóxicos e de uma espécie de semente transgênica no campo. No momento em que um dos decretos seria assinado, Andrade foi vaiado mais uma vez. Gilberto Carvalho pediu, com gestos de abafamento feitos com a mão, que a hostilidade fosse cessadas. O ministro obteve sucesso e não houve mais manifestações contrárias ao colega. O ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, reconheceu que o plano estava pronto há mais tempo, mas que “coube à presidente decidir o melhor momento para apresentá-lo”. Sem citar o nome dos possíveis adversários em 2014, a presidente justificou a opção por apresentar a proposta de agroecologia nesta semana. “Sempre vai ter alguém para perguntar: por que demorou tanto? É óbvio que leva muito tempo para as coisas acontecerem, porque um plano não pode sair apenas da cabeça de três ou quatro pessoas”, disse Dilma. A presidente demonstrou ainda o desejo de que os produtos orgânicos sejam comercializados por intermédio do Plano de Aquisição de Alimentos (PAA), um programa que prevê a compra, pelo governo federal, da produção de pequenos agricultores. Ao explicitar essa vontade, mais uma vez, Dilma fez uma referência indireta à disputa eleitoral. “Nesta época do ano, tem sempre alguém fazendo perguntas estranhas. Perguntaram se o Plano de Aquisição de Alimentos acabaria. Não só não vai acabar como será ampliado”, declarou, sob aplausos da plateia. Dilma elogiou a presença de jovens e mulheres na cerimônia e confirmou a assinatura de 100 decretos de desapropriação de terras em condições de serem utilizadas imediatamente pelos assentados rurais. Ao lembrar que o embrião do Plano de Agroecologia havia sido lançado durante a Marcha das Margaridas (movimento criado pelas mulheres trabalhadoras rurais), Dilma mencionou novamente, ainda que de forma indireta, a disputa política. “Quando assumo um compromisso, eu cumpro!”, reforçou, durante o anúncio do programa que prevê R$ 8,8 bilhões em investimentos nos próximos três anos. Na cerimônia, Dilma ainda brincou com os cartazes levados pelo público: “Queria avisar para vocês que têm um problema comigo: eu não enxergo de longe com acuidade. É uma trabalheira vocês botarem cartazes. Eu aperto o olho e não consigo ler. Se for pequenininho (o cartaz), aí que eu não enxergo mesmo”. Agricultores Ao menos entre a plateia, o discurso de Dilma seduziu parte dos ouvintes. “As coisas podem não ter avançado muito no governo atual, mas já conhecemos a presidente Dilma. Marina ainda é uma estranha para a gente, não sabemos o que pode sair dessa aliança dela com Eduardo (Campos) nem o que um vice poderá fazer por nós”, afirmou o produtor rural Antônio Borges dos Santos, de Mato Grosso do Sul. Já o casal de assentados Clebson Gomes e Cristiane Cavalcanti de Albuquerque — presentes no evento com a pequena Maria Cecília, de 6 anos, no colo — destacou que os movimentos sociais já escolheram candidato: Dilma Rousseff. “Nós conhecemos o Eduardo, ele governa o nosso estado”, disse Cristiane. Ambos são de Vitória de Santo Antão, na zona da mata pernambucana. A polarização entre Dilma e Marina ocorreu também em um seminário sobre o setor elétrico realizado na manhã de ontem. A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, afirmou que o governo “tem evoluído” em questões relacionadas à construção de usinas e linhas de transmissão, sobretudo na Amazônia, “sem que a discussão ficasse parada no tema bagres e pererecas”, disse, em referência a uma crítica feita pelo então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, à burocracia para a liberação das licenças ambientais destinadas às grandes obras de infraestrutura. PAULO DE TARSO LYRA DANIELA GARCIA


Disposta a puxar para si o discurso ambientalista que sustenta a ex-senadora Marina Silva, a presidente Dilma Rousseff lançou ontem o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo), em uma cerimônia repleta de recados políticos e eleitorais. Apesar de estar pronto desde junho, o projeto é apresentado para contrabalançar a repercussão da aliança de Marina com o governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos. Dilma reforçou que não adianta crescer se não houver equilíbrio sustentável, prometeu que os profissionais do Mais Médicos vão para as zonas rurais brasileiras, garantiu a ampliação do Programa de Aquisição de Alimentos e afagou os pequenos produtores rurais. “Temos que discutir o futuro do Brasil Rural e o papel dele no desenvolvimento do país”, defendeu a presidente.
Recepcionada aos gritos de “olê, olê, olê, olá, Dilma, Dilma”, a presidente deixou para o chefe da Secretaria-Geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, a tarefa de resolver a única saia justa na cerimônia. O ministro da Agricultura, Antônio Andrade, vinha sendo vaiado toda vez que tinha o nome anunciado. Representantes de pequenos produtores, como Maria Verônica Santana, pediam que a presidente vetasse o projeto de lei que permite a utilização de agrotóxicos e de uma espécie de semente transgênica no campo.
No momento em que um dos decretos seria assinado, Andrade foi vaiado mais uma vez. Gilberto Carvalho pediu, com gestos de abafamento feitos com a mão, que a hostilidade fosse cessadas. O ministro obteve sucesso e não houve mais manifestações contrárias ao colega.
O ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, reconheceu que o plano estava pronto há mais tempo, mas que “coube à presidente decidir o melhor momento para apresentá-lo”. Sem citar o nome dos possíveis adversários em 2014, a presidente justificou a opção por apresentar a proposta de agroecologia nesta semana. “Sempre vai ter alguém para perguntar: por que demorou tanto? É óbvio que leva muito tempo para as coisas acontecerem, porque um plano não pode sair apenas da cabeça de três ou quatro pessoas”, disse Dilma.
A presidente demonstrou ainda o desejo de que os produtos orgânicos sejam comercializados por intermédio do Plano de Aquisição de Alimentos (PAA), um programa que prevê a compra, pelo governo federal, da produção de pequenos agricultores. Ao explicitar essa vontade, mais uma vez, Dilma fez uma referência indireta à disputa eleitoral. “Nesta época do ano, tem sempre alguém fazendo perguntas estranhas. Perguntaram se o Plano de Aquisição de Alimentos acabaria. Não só não vai acabar como será ampliado”, declarou, sob aplausos da plateia.
Dilma elogiou a presença de jovens e mulheres na cerimônia e confirmou a assinatura de 100 decretos de desapropriação de terras em condições de serem utilizadas imediatamente pelos assentados rurais. Ao lembrar que o embrião do Plano de Agroecologia havia sido lançado durante a Marcha das Margaridas (movimento criado pelas mulheres trabalhadoras rurais), Dilma mencionou novamente, ainda que de forma indireta, a disputa política. “Quando assumo um compromisso, eu cumpro!”, reforçou, durante o anúncio do programa que prevê R$ 8,8 bilhões em investimentos nos próximos três anos. Na cerimônia, Dilma ainda brincou com os cartazes levados pelo público: “Queria avisar para vocês que têm um problema comigo: eu não enxergo de longe com acuidade. É uma trabalheira vocês botarem cartazes. Eu aperto o olho e não consigo ler. Se for pequenininho (o cartaz), aí que eu não enxergo mesmo”.
Agricultores
Ao menos entre a plateia, o discurso de Dilma seduziu parte dos ouvintes. “As coisas podem não ter avançado muito no governo atual, mas já conhecemos a presidente Dilma. Marina ainda é uma estranha para a gente, não sabemos o que pode sair dessa aliança dela com Eduardo (Campos) nem o que um vice poderá fazer por nós”, afirmou o produtor rural Antônio Borges dos Santos, de Mato Grosso do Sul. Já o casal de assentados Clebson Gomes e Cristiane Cavalcanti de Albuquerque — presentes no evento com a pequena Maria Cecília, de 6 anos, no colo — destacou que os movimentos sociais já escolheram candidato: Dilma Rousseff. “Nós conhecemos o Eduardo, ele governa o nosso estado”, disse Cristiane. Ambos são de Vitória de Santo Antão, na zona da mata pernambucana.
A polarização entre Dilma e Marina ocorreu também em um seminário sobre o setor elétrico realizado na manhã de ontem. A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, afirmou que o governo “tem evoluído” em questões relacionadas à construção de usinas e linhas de transmissão, sobretudo na Amazônia, “sem que a discussão ficasse parada no tema bagres e pererecas”, disse, em referência a uma crítica feita pelo então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, à burocracia para a liberação das licenças ambientais destinadas às grandes obras de infraestrutura.

PAULO DE TARSO LYRA
DANIELA GARCIA

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